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Meio Ambiente: Consciência que ainda não é Ação

Entrevista com Délcio Rodrigues do Universo EAD (SENAC) aborda questões sobre o impacto de fatos recentes e eventos futuros na consciência ambiental da população e, possivelmente, em uma ação efetiva. Um aspecto importante levantado na entrevista é a relação entre o crescimento da consciência ambiental e as ações efetivamente empregadas, seja por parte da população, seja pelos orgãos públicos e organizações privadas.

Abaixo, segue entrevista na íntegra.
Clique aqui  para acessar o original.


Questão ambiental: é preciso transformar consciência em ação

20 de abril de 2011.
Universo EAD - SENAC

Não é de hoje que a questão ambiental tem conquistado espaço nos diversos setores da economia. E, com maior frequência, novos projetos, pesquisas e leis surgem em quase todo o mundo para apoiar iniciativas e ideias que, até então, faziam parte apenas das preocupações de intelectuais e ecologistas.

Infelizmente, as tragédias naturais também têm tornado essas preocupações mais populares. Hoje, a maioria dos cidadãos é capaz de tecer comentários sobre aquecimento global, poluentes, terremotos, deslizamentos, furacões e outros graves incidentes mundiais. Mas será que cada um de nós tem, realmente, feito a sua parte para minimizar a ocorrência desses fenômenos?

Para falar sobre os principais aspectos que envolvem o tema meio ambiente, o Universo EAD entrevistou o físico Délcio Rodrigues, diretor executivo do instituto Ekos Brasil que, entre diversas atividades, participou do conselho internacional de campanhas do Greenpeace.

Universo EAD – Délcio, você acredita que as recentes tragédias ocorridas no Brasil e no mundo podem servir de alerta para que haja mais atenção global com a questão do meio ambiente?
Délcio Rodrigues – Essas tragédias têm em comum a existência de assentamentos humanos em locais inapropriados, seja devido à possibilidade de avalanches e escorregamentos na serra fluminense, seja devido à probabilidade elevada de ocorrência de terremotos e tsunamis na costa do Japão. Aliás, a palavra tsunami é japonesa, o que por si só já mostra a recorrência do fenômeno na região. Essas tragédias certamente terão consequências na regulação da habitação e da geração de energia nuclear, devem aumentar os custos e a reação social contra a energia nuclear a níveis que talvez a inviabilizem, enfim, devem aumentar a atenção social com os aspectos ambientais.

Universo EAD – Como você avalia a participação de empresas públicas e privadas na popularização das campanhas de preservação do meio ambiente?
Délcio Rodrigues – Nenhuma empresa pública ou privada é admirada hoje por seus consumidores e pela sociedade se descuidar dos aspectos ambientais de suas atividades. Mais que isso, observo que empresas que se posicionam como cuidadoras do meio ambiente têm melhores condições competitivas, são consideradas como melhores locais para se trabalhar e muitas vezes conseguem melhor remuneração pelos seus produtos. A tendência contemporânea é que as empresas sejam popularizadoras da consciência ambiental, embora infelizmente não seja ainda uma prática universal.

Universo EAD – Você acha que a atual crise econômica pode intensificar a crise do meio ambiente? Ou seria o contrário?
Délcio Rodrigues – É possível detectar efeitos contraditórios na crise econômica. Por um lado, a preocupação internacional com o crescimento e a manutenção do nível de emprego levou vários governos a incentivar a produção sem a devida atenção às questões ambientais. Por outro lado, o vendaval democrático que varre o norte da África e a Península Arábica gera inseguranças e alarma quanto à dependência no petróleo, impulsionando ainda mais a energia solar, a eólica e os combustíveis da biomassa, o que certamente contribuirá com a mitigação das mudanças climáticas. Como esses exemplos, poderíamos apontar outros sinais contraditórios, de modo que avaliar o real efeito da crise econômica na questão somente será possível dentro de algum tempo.

Universo EAD – Qual é a importância do cidadão comum junto a campanhas relacionadas ao meio ambiente?
Délcio Rodrigues – Grande. Embora a efetividade da ação do cidadão comum seja bastante dependente da organização social na qual ele está inserido, sua responsabilidade enquanto consumidor e eleitor consciente pode fazer grande diferença.

Universo EAD – Você acredita que os brasileiros já têm consciência sobre a importância do meio ambiente no dia a dia da população?
Délcio Rodrigues – O brasileiro está cada vez mais consciente dos problemas ambientais, como se pode ver, por exemplo, nos resultados da pesquisa “O que os brasileiros pensam do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável”, feita de tempos em tempos pelo Iser (Instituto de Estudos da Religião) e pelo Ministério do Meio Ambiente. Por exemplo, em 1992, 46% da população não conseguia espontaneamente citar nenhum problema ambiental na sua cidade ou no seu bairro. Na pesquisa de 1997, esse percentual caiu para 36%; em 2001, para 27%; e em 2005, para 11%, o que é uma evolução surpreendente. A dificuldade do brasileiro parece ser transformar essa consciência em ação. Pelo menos é o que se vê no dia a dia de nossas cidades e na baixa cobrança de melhorias ambientais exercida sobre os governos.

Universo EAD – A frase “educação vem de berço” também vale para questões ligadas ao meio ambiente? Qual é o papel das famílias e das instituições de ensino junto à educação ambiental?
Délcio Rodrigues – A família e a escola têm papel na educação ambiental das crianças, assim como têm na educação afetiva, social, na criação do hábito de leitura e muito mais, embora observemos muitas vezes a criança cobrando atitudes mais “verdes” de seus pais e parentes, e não o contrário. É importante que a família e as instituições educacionais tenham atitudes efetivas na promoção da sustentabilidade de nossa sociedade para que a criança perceba que o discurso pelo meio ambiente, quase banal em nossos dias, é pra valer.

Universo EAD – Na sua opinião, a internet e as redes sociais podem ajudar a difundir a importância do meio ambiente entre a população?
Délcio Rodrigues – Como meio de informação e comunicação, a internet tem grande papel na difusão da importância do meio ambiente e de boas práticas e também na denúncia de infrações e crimes ambientais. As redes sociais têm conseguido mobilizar para a ação, o que é fundamental.

Universo EAD – Independente das razões, na sua opinião, qual são os problemas ambientais mais graves no atual cenário nacional?
Délcio Rodrigues – Eu diria que a reduzida fração de esgoto que é efetivamente tratada nas nossas cidades; os impactos no ar das grandes cidades e no clima do planeta causados pelo excesso de automóveis e transportes rodoviários; e a perda da biodiversidade e de fontes de água pelo desmatamento são os nossos principais problemas ambientais. Este último ainda pode ser agravado pela alteração do Código Florestal, proposta em atual tramitação no Congresso Nacional.

Universo EAD – Que projetos poderiam ajudar a minimizar esses problemas?
Délcio Rodrigues – Quanto aos dois primeiros problemas apontados, um ambicioso programa de investimento em saneamento, ambientalmente adequado, e investimentos maciços no transporte público urbano e em uma rede ferroviária adequada ao porte do país. Agora, para preservar a fauna e a flora (os chamados biomas), reduzir o desmatamento da Amazônia e também do Cerrado, não será um ou outro projeto que poderá enfrentar a questão. Precisaremos aprofundar a integração de programas e ações governamentais, como a que conseguiu reduzir significativamente o desmatamento da Amazônia nos últimos anos, embora as taxas de desmatamento daquele bioma ainda sejam vergonhosas. É preciso transformar a redução do desmatamento em prioridade nacional. E incentivar a pesquisa, ampliar nosso conhecimento sobre os biomas, de modo a realmente transformá-los em ativos valiosos para a sociedade.

Universo EAD – Atualmente, quais são as iniciativas mais eficazes em busca da preservação do meio ambiente? Há exemplos viáveis para o Brasil?
Délcio Rodrigues – A preservação do meio ambiente ainda depende fortemente de políticas de “comando e controle”, isto é, de legislações que determinem a preservação ambiental, com fiscalização e policiamento eficientes para garantir sua aplicação. Entretanto, iniciativas que buscam criar valor para os biomas de determinadas regiões, como o pagamento pelos serviços ambientais prestados ou os sistemas de cap and trade – o estabelecimento de limites de emissão e a comercialização de direitos sobre esses limites –, têm gerado impactos positivos. Exemplos são o sistema de cap and trade que conseguiu reduzir em muito as emissões de óxidos de enxofre nos Estados Unidos e os pagamentos feitos pela cidade de Nova York aos proprietários das terras da região de seus mananciais para que mantenham suas florestas e protejam as nascentes. Esquemas como esses estão surgindo em municípios de Minas Gerais com resultados fascinantes. E é bem possível que vejamos, no futuro próximo, um sistema de comercialização de créditos de carbono entre as unidades federativas brasileiras.

Universo EAD – Você acredita que a realização da Copa 2014 no Brasil possa trazer benefícios ambientais ao país? Se sim, quais poderia citar como exemplo?
Délcio Rodrigues – Não acredito que esses eventos tragam benefícios ambientais significativos ao país. Talvez, eventualmente, uma ou outra cidade, ou bairros de algumas cidades, possa ver algum saneamento ou transporte público surgir em função dos eventos esportivos. Mas certamente eles não têm força para alterar significativamente as grandes questões ambientais enfrentadas hoje pelo Brasil.

Universo EAD – No aspecto profissional, como você avalia o futuro das carreiras ligadas ao meio ambiente? Que áreas deverão ter mais destaque?
Délcio Rodrigues – Carreiras profissionais ligadas ao meio ambiente estão crescendo em importância e vão crescer ainda mais. Mas me parece que a grande transformação profissional trazida pela crise ambiental das mudanças climáticas e pelo aumento da consciência sobre os impactos causados pela humanidade ao meio ambiente seja a incorporação de tecnologias e saberes ambientais em todas as profissões. Advogados terão que tratar mais com questões ambientais, assim como engenheiros, enfermeiros, geólogos, jornalistas, administradores, economistas etc. Essa sim é a grande transformação de carreiras trazida pela crise ambiental.


04/2011

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