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O MISSIONÁRIO DA ENERGIA

uliana Borges para o Portal Exame

Até o final de 2008, a vida da família do agente comunitário de saúde Raimundo Alves Assunção não era lá muito iluminada. Moradores da comunidade de Maripá, que fica dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no Pará, ele, a mulher e os quatro filhos só tinham energia elétrica em casa por cerca de 3 horas, três vezes por semana – graças a dois geradores movidos a diesel que abasteciam parte da comunidade. Em outubro, fez-se a luz para Assunção. Sua casa, às margens do rio Tapajós, passou a contar com um moderno painel solar – e ele agora tem luz o dia todo, a semana inteira. Nos últimos meses, outras 59 moradias do vilarejo aderiram à energia renovável. Com isso, não apenas as famílias mudaram seu estilo de vida – agora podem assistir à televisão à noite – como economizaram dinheiro. Para ter acesso à energia mambembe dos geradores, Assunção gastava cerca de 70 reais por mês. Hoje, desembolsa 38 reais pelo aluguel dos painéis solares. O responsável pela melhoria da qualidade de vida das famílias de Maripá, e de outras centenas de moradores de outras regiões do Brasil, é o gaúcho Fábio Rosa. Aos 49 anos de idade, engenheiro agrônomo de formação, é ele quem criou e dirige o Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas e da Auto Sustentabilidade, (Ideaas), ONG criada em 1997, em Porto Alegre, que se dedica a levar energia limpa – e barata – a famílias da chamada base da pirâmide.
 
O que Rosa vem fazendo é legitimar a tese de uma das maiores referências mundiais em estratégias para as populações de baixa renda, o americano Stuart L. Hart. Professor da Universidade Cornell, Hart prega que a sustentabilidade do planeta depende da convergência de duas revoluções que a economia mundial viu desabrochar na última década: a das tecnologias limpas e a da base da pirâmide. O raciocínio por trás dessa ideia é que são consumidores como Assunção, que não têm acesso às tecnologias tradicionais e ao conforto que elas oferecem, os que primeiro podem ser convencidos a adotar as tecnologias verdes – e, aos poucos, fazer com que elas ganhem escala. Para tristeza de Hart, porém, ainda são poucos os empreendedores que se arriscam a criar modelos de negócios que se encaixem em sua fórmula. E isso explica por que Rosa, um dos poucos a se aventurar nesse campo, se transformou numa espécie de celebridade. Ele já ganhou uma dezena de prêmios, como o de excelência em empreendedorismo social da Fundação Schwab, uma das mais respeitadas do mundo. Em um livro publicado pela Harvard Business School, o Business Solution for the Global Poor ("Soluções de negócios para combater a pobreza global", numa tradução livre), Rosa foi apontado como o criador de um dos modelos mais inovadores em energia no mundo. Também deu palestras nas escolas de negócios das universidades Stanford e Yale e, por quatro anos seguidos, para grupos de executivos de empresas de países ricos durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. "É possível que Rosa seja hoje a pessoa no mundo que mais entende de energia limpa e base da pirâmide", diz Claudio Sanches, diretor do Itaú Unibanco e conselheiro da Ashoka, ONG que financia empreendedores sociais em diversos países.
 
Aos poucos, a fama de Rosa começou a atrair grandes corporações interessadas em fazer parcerias. Depois de dar uma palestra em Lisboa para o grupo de energia português EDP, ele foi convidado a ajudar a Fundação EDP a levar energia solar para o campo de refugiados de Kakuma, no Quênia. Localizado no noroeste do país africano e a cerca de 1 000 quilômetros da capital, Nairóbi, o campo abriga mais de 50 000 pessoas que vivem em condições precárias. "Visite a pior favela no Brasil e ela se parecerá com um condomínio decente perto de Kakuma", diz Rosa. Os refugiados não têm acesso à luz elétrica. Só para manter funcionando até as 10 da noite toda a estrutura de ajuda humanitária – hospitais, aeroporto, escolas, escritórios, armazéns para estocagem de comida e alojamentos, entre outras dependências – são consumidos diariamente cerca de 1 500 litros de óleo diesel. Esse combustível chega a Kakuma ao custo médio de 2,5 dólares o litro. Rosa calculou que, para cobrir todo o campo com painéis solares – que iluminariam inclusive as barracas dos refugiados –, seria necessário um investimento superior a 5 milhões de euros. Se bem-sucedido, o projeto – que deve ser executado ao longo dos próximos quatro anos – servirá de modelo para outros campos espalhados pelo mundo. "Kakuma tem sol forte e temperatura média de 45 graus", diz Rosa. "É inconcebível que viva no escuro."
 
As primeiras experiências de Rosa no campo da energia começaram na década de 80, quando ele criou um método de eletrificação para as zonas rurais do Rio Grande do Sul que custava cerca de 400 dólares por domicílio – um valor até 20 vezes menor do que o modelo usado até então. Hoje o programa do governo federal Luz para Todos usa essa tecnologia. Seu desafio agora é fazer com que o projeto de energia solar ganhe escala semelhante. A Ideaas já instalou 300 painéis solares para famílias de baixa renda que moram em lugares remotos, como na reserva Tapajós-Arapiuns. Outros 150 painéis foram colocados na Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. O número total de painéis instalados pela Ideass, porém, mostra que o avanço da ONG tem sido lento. "Só na Amazônia, calculamos que 3 000 famílias poderiam se beneficiar da tecnologia", afirma Rosa. A explicação para esse ritmo é simples: quem paga pelos painéis, que tem custo unitário de cerca de 1 500 reais, é a própria Ideaas. E a instituição não consegue dar escala à operação apenas com o dinheiro dos aluguéis e das doações que recebe de empresas e de entidades, como o Itaú Unibanco, o Instituto HSBC Solidariedade e a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid). Vender os painéis em vez de doá-los não é uma opção. "Não faz sentido pedir a uma pessoa pobre que pague por um produto que ela vai demorar 25 anos para consumir", diz ele. "Mesmo porque dificilmente ela terá esse dinheiro." A Cosmos Ignite, empresa criada por empreendedores indianos e americanos da Universidade Stanford, pode se vangloriar de ter alcançado a escala com que Rosa tanto sonha. Ela desenvolveu em 2004 uma espécie de lanterna de LED que é abastecida com energia solar. De lá para cá, quase 100 000 unidades do produto foram vendidas em países como Nigéria, Guatemala e Paquistão. O aparelho custa cerca de 50 dólares e pode ser financiado em até cinco anos. "Existe um mercado enorme a ser explorado", diz Rosa. "E muita gente está percebendo isso."
 
 
 

08/2009

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