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REDD, CLIMA E AS FLORESTA VULNERÁVIES DA AMAZÔNIA SUL-OCIDENTAL

Por Foster Brown, Marcos Silveira e Elsa Mendoza em 28/05/2009 para A Gazeta

Em março, governadores de cinco estados da Amazônia brasileira reuniram-se em Cuiabá para defender a implantação de um programa de pagamentos por serviços ambientais como meio de reduzir desmatamento e emissões de gases de efeito estufa.  Uma das propostas deste programa se chama REDD, sigla que significa Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal e trata de pagamentos para manter a floresta em pé.
 
REDD seria um mecanismo para alocar recursos financeiros internacionais para incentivar alternativas a desmatamento, seja via fundos voluntários, seja via mercados de carbono, porém existem muitas dúvidas nos detalhes.  O Governo Federal já está avançando em um plano do Fundo Amazônia com mais de 100 milhões de dólares doados pela Noruega e estima-se que no próximo ano poderá obter um bilhão de dólares provenientes de doações.
 
Por que os países ricos estariam dispostos a pagar para manter a floresta Amazônica em pé?  A razão vem da preocupação de reduzir o mais rápido possível as emissões de gases de efeito estufa e retardar o aquecimento do planeta.  Cerca de 10 a 20% de aproximadamente nove bilhões de toneladas de carbono emitido por ano via atividade humana vem de desmatamento nos trópicos.
Quando se derruba e queima a floresta para colocar pasto ou roçado, cerca de 100 toneladas de carbono é liberada por hectare.  O argumento é que pagando os países para não desmatar é um dos mecanismos mais baratos para reduzir o fluxo de gases de efeito estufa.  Entretanto, REDD não vai resolver o problema de emissões, mas já é um início.
A idéia é simples, mas quando se fala de dinheiro, logo ela fica complicada com assuntos como equidade, quem vai se beneficiar mais, e os papéis dos governos local, estadual, federal, etc. Quem ganha ou perde está começando a ser o tópico de artigos e discursos.
 
Mas todo este debate depende das florestas tropicais manterem ou aumentarem os seus estoques de carbono.  Em outras palavras, as florestas devem agir como um reservatório onde o carbono nos troncos, raízes e galhos das árvores e no solo se mantém em uma quantidade constante ou vai se acumulando.  Um artigo publicado em março soou um alarme sobre esta premissa.
Este artigo, intitulado, "Sensibilidade da Floresta Amazônica a Secas" e publicado na revista Science, conta com a participação do um de nós (M.S) e a acreana Atila Cristina Alves de Oliveira, formada na Ufac.  Os autores analisaram dados de várias parcelas permanentes que permitiram medir o crescimento e mortalidade de árvores em florestas de várias regiões da Amazônia.
Neste estudo eles descobriram que a seca de 2005 transformou as florestas da Amazônia Sul-Ocidental numa fonte de gases de efeito estufa.  Antes de 2005, as florestas no leste do Peru e no Acre estavam acumulando cerca de meia tonelada de carbono por hectare por ano, via absorção de gás carbônico da atmosfera.  Durante a seca de 2005, mudanças na mortalidade e crescimento de árvores levaram a uma liberação de cerca de meia tonelada de carbono por hectare por ano.
 
Para o Estado do Acre, com aproximadamente 14 milhões de hectares de floresta, antes de 2005 as florestas estavam absorvendo cerca de sete milhões de toneladas de carbono por ano, mas em 2005, elas liberaram cerca de sete milhões de toneladas de carbono.  O estoque total de carbono nas florestas do Acre ainda é imenso, na ordem de um bilhão de toneladas de carbono, mas mesmo assim, a tendência a perder carbono durante as secas é preocupante.  Os dados do artigo confirmam as observações de seringueiros, colonos e indígenas sobre o impacto da seca de 2005 na produtividade das florestas.
 
Os modelos globais de circulação atmosférica indicam que podemos ter mais secas no futuro.  Caso isto aconteça, os pagamentos de serviços ambientais podem ser comprometidos.  Afinal, manter a floresta em pé pode não significar manter estoques de carbono, se os dados do artigo podem ser generalizados para secas futuras.
 
Mas isto não é o pior.  A degradação da floresta durante uma seca prolongada produz mais troncos e galhos mortos, combustível pronto para incêndios florestais.  Corremos o risco de ter uma sinergia maléfica onde secas prolongadas criam condições propícias para o alastramento de fogo em florestas e estes incêndios florestais por sua vez produzem mais combustível com o aumento da mortalidade de árvores.
 
A preocupação sobre mudanças climáticas criou a oportunidade para discutir pagamentos de serviços ambientais.  Porém, se as secas se tornarem mais frequentes no futuro próximo o assunto é muito mais sério do que as negociações sobre quem vai receber quanto como pagamento.  A saúde da floresta, abastecimento de água e a inflamabilidade das nossas paisagens estarão em jogo.
O assunto do REDD levanta uma série de debates sobre desigualdades e interdependências entre países, sobre as responsabilidades de ação, e mais importante, sobre que futuro queremos para a Terra.  Os estoques de carbono e a vulnerabilidade das florestas nesta parte do mundo significam que ações locais têm que ser respaldadas por outras no globo inteiro.  Todos precisam cuidar do seu pedaço da Terra e procurar sustentabilidade no uso dela; o futuro de nossos filhos e da floresta depende deste cuidado global.
 
Foster Brown é pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, docente do curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) da Universidade Federal do Acre (Ufac) e cientista do Experimento de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazonia (LBA) e do Parque Zoobotânico da Ufac;  Marcos Silveira é professor da Ufac e do MEMRN, cientista do LBA e da Rede Amazônica de Inventários Florestais (RAINFOR); Elsa Mendoza é pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e cientista do LBA.
 
 

05/2009

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